20 de jul. de 2010

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade

Paris, 17 de fevereiro de 1903.

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

(...)

Se depois dessa volta para dentro, desse ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta / A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. São Paulo. Globo, 2001. p.25-26.

17 de jul. de 2010

Fragmentos de um discurso amoroso

SAUDOSO?

SAUDOSO. Imaginando-se morto, o sujeito amoroso vê a vida do ser amado continuar como se nada tivesse acontecido.

(Werther)
1. Werther surpreende Carlota e uma de suas amigas batendo papo; falam com indiferença de um moribundo: "E contudo [...] se partisses hoje, se te afastasses de sua convivência? [...] Teus amigos acaso sentiriam, quanto sentiriam o vazio que tua perda causaria em suas existências? Por quanto tempo?..."
Não que eu me imagine desaparecendo sem deixar saudades: o necrológio é certo: é que justamente através do próprio luto, que não nego, vejo a vida dos outros continuar, sem mudanças; vejo-os perseverar em suas ocupações, passatempos, problemas, freqüentar os mesmos lugares, os mesmos amigos; nada mudaria no ramerrão de sua existência. Do amor, assunção demencial da Dependência (tenho absoluta necessidade do outro), surge cruelmente a posição adversa: ninguém tem realmente necessidade de mim.

(j.-L.B.)
(Apenas a Mãe pode sentir saudades: estar deprimido, dizem, é carregar a figura da Mãe tal como imagino que irá para sempre sentir saudades de mim: imagem imóvel, morta, oriunda da Nekuia; mas os outros não são a Mãe: a eles pertence o luto, a mim a depressão.)

(Etimologia)
2. O que aumenta o pânico de Werther é que o moribundo (no qual ele se projeta) seja assunto de um bate-papo: Carlota e suas amigas são "umas comadrezinhas" que falam futilmente da morte. Vejo-me assim sendo devorado sem apetite pela conversa dos outros, dissolvido no éter da Fofoca. E a Fofoca continuará sem que eu seja, de há muito, seu objeto: uma energia linguageira, fútil e incansável consumirá até mesmo minha lembrança.

j.-L.B.: conversa
Etimologia: "papear" (em francês: papoter): pappa, mingau, pappare, comer sem apetite, palrar e comer.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

"Os Sofrimentos do Jovem Werther" é o título de uma obra de Goethe.

16 de jul. de 2010

Prometi amá-la fielmente...

" E abertamente entreguei meu  coração à terra séria
e doente, e muitas vezes, na noite  sagrada, prometi
amá-la fielmente até a  morte, sem medo, com a sua
pesada carga de fatalidade, e não desprezar nenhum
de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me à fatalidade
por um elo mortal. "

Hölderlin
A morte de Empédocles


15 de jul. de 2010

A revolta nasce do espetáculo da desrazão

O absurdo, visto como regra de vida, é portanto contraditório. Que há de espantoso em que não nos forneça os valores que decidiriam por nós quanto à legitimidade do assassinato? Aliás, não é possível fundamentar uma atitude em uma emoção privilegiada. O sentimento do absurdo é um sentimento entre outros. O fato de ter emprestado suas cores a tantos pensamentos e ações no período entre as duas guerras prova apenas a sua força e a sua legitimidade.
Mas a intensidade de um sentimento não implica que ele seja universal. O erro de toda uma época foi o de enunciar, ou de supor enunciadas, regras gerais de ação, a partir de uma emoção desesperada cujo movimento próprio, na qualidade de emoção, era o de se superar. Os grandes sofrimentos, assim como as grandes alegrias, podem estar no ínicio de um raciocínio. São intercessores. Mas não se saberia como encontrá-los e mantê-los ao longo desses raciocínios. Se, portanto, era legítimo levar em conta a sensibilidade absurda, fazer o diagnóstico de um mal tal como se encontra em si e nos outros, é impossível ver nesta sensibilidade, e no niilismo que ela supõe, mais do que um ponto de partida, uma crítica vivida, o equivalente, no plano da existência, à duvida sistemática. Em seguida, é preciso quebrar os jogos fixos do espelho e entrar no movimento pelo qual o absurdo supera a si próprio.

Quebrado o espelho, não resta nada que nos possa servir para responder às questões do século. O absurdo, assim como a dúvida metódica, fez tábula rasa. Ele nos deixa sem saída. Mas, como a dúvida, ao desdizer-se, ele pode orientar uma nova busca. Com o raciocínio acontece o mesmo. Proclamo que não creio em nada e que tudo é absurdo, mas não posso duvidar de minha própria proclamação e tenho de, no mínimo, acreditar em meu protesto.
A primeira e única evidência que assim me é dada, no âmbito da experiência absurda, é a revolta. Privado de qualquer conhecimento, impelido a matar ou a consentir que se mate, só disponho dessa evidência, que é reforçada pelo dilaceramento em que me encontro. A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. Mas transformar é agir, e agir, amanhã, será matar, enquanto ela ainda não sabe se matar é legítimo. Ela engendra justamente as ações cuja legitimação lhe pedimos. É preciso, portanto, que a revolta tire as suas razões de si mesma, já que não consegue tirá-las de mais nada. É preciso que ela consinta em examinar-se para aprender a conduzir-se.

Dois séculos de revolta, metafísica ou histórica, se oferecem justamente à nossa reflexão. Só um historiador poderia pretender expor, com detalhes, as doutrinas e os movimentos que se sucederam nesse período. Deve ser possível, pelo menos, buscar nele o fio da meada. As páginas que se seguem propõem apenas alguns marcos históricos, e uma hipótese não é a única possível; aliás, ela está longe de tudo esclarecer. Mas explica em parte o rumo e, quase inteiramente, os excessos de nosso tempo. A história prodigiosa que aqui se evoca é a história do orgulho europeu.

A revolta, em todo o caso, só podia fornecer-nos as suas razões ao cabo de uma pesquisa sobre as suas atitudes, pretensões e conquistas. Em suas realizações talvez se encontrem a regra de ação que o absurdo não conseguiu nos oferecer, uma indicação pelo menos sobre o direito ou o dever de matar, a esperança, enfim, de uma criação. O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. A questão é saber se esta recusa não pode levá-lo senão à destruição dos outros e de si próprio, se toda revolta deve acabar em justificação do assassinato universal ou se, pelo contrário, sem pretensão a uma impossível inocência, ela pode descobrir o princípio de uma culpabilidade racional. (CAMUS, 2005, p.20 - 22)

BIBLIOGRAFIA

CAMUS, Albert. O Homem Revoltado. Trad. Valerie Rumjanek. 6.ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.

14 de jul. de 2010

Alheios a nós mesmos

Se vivermos a vida alheia ou as verdades da vida alheia ou, até mesmo, as vontades alheias, seremos nada mais do que alheios a nós mesmos. E como poderia alguém alheio a si mesmo ser significante para uma outra pessoa, para uma sociedade, para o mundo?
A filosofia, e nisso entenda-se a atividade contínua de filosofar, é condição sine qua non para a existência humana; existência, esta, a de fato, a de ex - sistir, a de "lançar-se". A atividade filosófica nos trás à tona as mazelas do mundo, as incertezas da eterna dúvida, mas, também, trás-nos a certeza de uma vida autêntica à medida em que é praticada pelo sujeito.

12 de jul. de 2010

História da Filosofia: O Existencialismo

7. - O Existencialismo

Heidegger.

"Ao defrontar-se com o existencialismo, a primeira pergunta que todos se formulam logicamente, é esta: estamos realmente diante de uma filosofia no sentido rigoroso do termo? E como a resposta depende de uma definição, todos se preocupam antes de mais nada com a definição pelo menos descritiva do existencialismo, para examinar-lhe os termos, o sentido e a extensão. Ora, os mestres do existencialismo, a evolução de suas idéias, a natureza dos seus princípios, impõem a seguinte conclusão: o existencialismo tem historicamente, e pode ter especulativamente, numerosas e até as mais variadas definições, porque é um conjunto de idéias em ebulição, de idéias que ainda não amadureceram". Acertadamente foi dito, portanto, que o existencialismo é "uma posição, uma situação, um fundo de cenário, mais do que uma filosofia" (72). O existencialismo tomou, no entanto, uma voga tão extraordinária em nossos dias (73) que não é possível silenciá-lo numa história da filosofia. Podemos dizer que o existencialismo é o grito do homem moderno, do pensador desiludido e amargurado pelas trágicas conseqüências da filosofia imanentista, destruidora do ser e de Deus. Neste fundo de subjetividade o pensador é atormentado pela nostalgia da verdade, da realidade, da existência e de Deus; o existencialismo é precisamente a expressão - como disse Maritain - "do grito da subjetividade para o seu Deus".

Com o idealismo absoluto - que teve no atualismo italiano de Gentile a sua extrema e lógica evolução - o pensamento moderno realizou integralmente o seu desenvolvimento imanentista. O existencialismo contemporâneo - o movimento vasto, profundo e significativo da nossa civilização - representa uma reação e uma crítica ao racionalismo e ao otimismo imanentistas do idealismo absoluto. É uma demolição do racionalismo idealista, enquanto enucleia despreocupadamente todos os elementos negativos, contingentes e irracionais, da experiência (humana), que, "absolutizada" imanentisticamente, tornar-se contraditória. Não é, porém, uma demolição do imanentismo, enquanto o existencialismo - pelo menos em suas posições mais significativas - pretende manter-se nos limites da experiência. E, portanto, deve logicamente finalizar no irracionalismo e no pessimismo.

Certamente o existencialismo moderno surge e se afirma filosoficamente como crítica ao racionalismo moderno; essa crítica foi acelerada e levada ao seu auge, historicamente, por duas guerras mundiais, que solaparam as utopias humanista-imanentistas de progresso e civilização, inspiradas nas ideologias do século passado. O existencialismo, porém, atinge e exprime elementos cósmicos, aspectos universais do mundo e da vida em sua negatividade, segundo a grande tradição moralista, que se pode considerar aberta com Buda, e que o existencialismo moderno levou a um grau de amadurecimento antes desconhecido.

Como as grandes orientações culturais do pensamento moderno, o existencialismo tem alcance europeu e mundial. Tem, porém, seu centro constitutivo na Alemanha, assim como o idealismo absoluto, de que representa uma crítica. É, portanto, uma crítica ao espírito do pensamento moderno kantiano e hegeliano. Também a França tem um centro difusor de existencialismo, e proporcionou outrossim uma contribuição fundamental ao pensamento moderno como o racionalismo fenomenista, que tem na França o seu fundador (Descartes), e que juntamente com o empirismo fenomenista (inglês), representa um dos constitutivos essenciais da síntese idealista kantiana.

O existencialismo alemão apresenta, fundamentalmente, um caráter imanentista, sobre a linha central do pensamento moderno; e, portanto, apresenta um caráter negativo, irracionalista e pessimista como o demonstra a filosofia de Heidegger, o maior expoente do existencialismo alemão, europeu e mundial. O existencialismo francês, ao contrário, representa, antes, um caráter transcendental, de conformidade com a tradição espiritualista francesa - ainda que a evasão da existência seja, geralmente, operada por motivos exigenciais, postuladores, fideístas, os quais estão fora do campo especulativo.

BIBLIOGRAFIA

PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 12.ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1978. p.484,485.

Imanente. adj. 1) Inerente: intrínseco 2) Permanente: constante, ininterrupto.

11 de jul. de 2010

Mas que importa: Eu Sou Livre.

"O enredo de As moscas se baseia numa lenda grega: Orestes - filho de Agamêmnon, rei de Argos - volta do exílio; seu objetivo é vingar a morte do pai, assassinado 15 anos antes por sua mãe, Clitemnestra, e pelo amante desta, Egisto - que após o crime enviaram-no para o degredo e transformaram sua irmã Electra em escrava".
Sartre utiliza desse conto, para deixar os seus "comentários" sobre a ocupação Nazista na França.

(...)

Orestes: É minha única chance. Electra, não podes me recusar essa chance. Compreenda-me: quero ser um homem de algum lugar, um homem entre homens. Olha: um escravo que passa, cansado e resmungando, e carregando seu pesado fardo, com os joelhos trêmulos e olhando para seus pés, para evitar cair, ele está dentro de sua cidade, como uma folha na folhagem, como a árvore na floresta, Argos está ao redor dele, pesada e quente, plena de si mesma; eu quero ser esse escravo, Electra, quero estender a cidade em volta de mim e me enrolar nela como se fosse um manto. Eu não vou embora. (SARTRE, 2005, p.59)

Orestes: É tua fraqueza que as faz fortes. Reparaste que a mim elas nada ousam dizer? Escuta: um horror sem nome se pôs sobre ti e nos separa. Mas que é que tu viveste que eu não tenha vivido? Os gemidos de minha mãe, acreditas que meus ouvidos cessarão de os ouvir? E seus olhos enormes – dois oceanos agitados – em seu rosto branco feito giz, acreditas que meus olhos deixarão de vê-los? E a angústia que te devora, acreditas que ela cessará de me roer? Mas que importa: eu sou livre. Para além da angústia e das lembranças. Livre. E de acordo comigo mesmo. Não deves odiar a ti mesma, Electra. Dá-me a mão: não te abandonarei nunca. (SARTRE, 2005, p.94)

Orestes: Não sou nem senhor nem escravo, Júpiter. Eu sou minha liberdade! Assim que me criaste eu deixei de te pertencer. (SARTRE, 2005, p.103)

BIBLIOGRAFIA

SARTRE, Jean-Paul. As Moscas - Teatro. Trad. Caio Liudvik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.