29 de fev. de 2012

Atribulações do Espírito

O espírito (leia-se intelecto) nada encontra além de disparates e contradições, quando sai a procura de razões, de significados. Diante do irracional, sente em si o desejo de felicidade e razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo. Isto é o que não devemos esquecer. A isto é que devemos nos apegar, porque toda a consequencia de uma vida pode nascer daí. O irracional, a nostalgia humana e o absurdo que surge de seu encontro, eis os tres personagens do drama (humano) que deve necessariamente acabar com toda a lógica de que uma existência é capaz. Camus, em O Mito de Sísifo.

Ps. Enfastiado com isso aqui!


BBB: si-mesmo como espetáculo
Verlaine Freitas*

Os reality-shows tornaram-se um fenômeno de cultura de massa em vários países, e no Brasil não foi diferente. O fato de que a audiência deste programa cresce a cada dia convida a uma reflexão sobre seu significado cultural. 

Nos anos 40 do século passado, Adorno e Horkheimer disseram que o que a cultura de massa vende é, no final das contas, o cotidiano cinzento, engrandecido pelo brilho dos meios técnicos. Por mais que tais obras mostrem voos de fantasia e exercícios da imaginação, seu sentido cultural mais próprio é o de oferecer às pessoas a satisfação da vida que já sempre levam. Buscando uma identificação, seja com a realidade vivida no dia-a-dia, seja com os sonhos e ideais de vários tipos, a cultura de massa glorifica a percepção narcísica que cada um tem de si mesmo. — Transcorridos pouco mais de 50 anos, a invenção desses shows-de-realidade aparece como uma confirmação impressionante dessa análise, realizada quando a indústria cultural ainda se estruturava, sem o poder de manipulação das imagens, sons e poder de difusão como nos dias de hoje.

(Há que se notar, que, através da expressão “oferta cultural”, que uso várias vezes aqui, pretendo dizer de um sentido geral do que é vendido por esse tipo de produto de entretenimento. Tal não significa dizer que toda e qualquer pessoa que o consuma o faça apenas ou eminentemente em função dessa “lógica”. Com base em um princípio geral de interpretação de produtos culturais, creio que não seja possível haver uma teoria suficientemente potente capaz de explicar e de abarcar as infinitas possibilidades de recepção de qualquer item cultural que seja. Cada pessoa tem uma dinâmica psíquica, uma disposição mental própria, um conjunto de valores sui generis etc., de modo que somente uma análise centrada em cada pessoa pode dizer de sua própria recepção a um bem cultural. Análise cultural não tem a validade de um diagnóstico clínico, mas, segundo penso, pode ser suficientemente válida para dizer de linhas de força que transitam pelo tecido social, às quais dificilmente alguém, em princípio, poderia se dizer totalmente imune.)
Já se disse várias vezes que os reality-shows possuem como uma de suas características peculiares a ausência de narrativa, de uma linha de ficção. Se as novelas já procuravam fazer um retrato estilizado dos conflitos, alegrias, sonhos e frustrações da classe média urbana, o Big Brother se apresenta como a oferta das infinitas vicissitudes da vida sem esta capa, este véu da ficção. Por mais que os críticos desse tipo de programa digam da artificialidade do comportamento das pessoas que se esforçam por ganhar o prêmio máximo, como também do trabalho de edição das imagens e da criação de uma linha de eventos que fornece uma coerência de uma narrativa artificial, parece pesar mais para os consumidores a percepção de que, sob a pressão do confinamento a longo prazo, as pessoas acabam revelando aquilo que elas mesmas são, de uma forma mais franca, verdadeira.

Creio que seja isso mesmo que o programa ofereça como satisfação cultural: um modo de digerir, através de uma atitude voyerista, a inquietude de não se saber quem se é. Vende-se um gozo pornográfico de bisbilhotar a intimidade virulenta e arredia que escapa pelos dedos, sob a pressão do olhar de milhões de pessoas.

Já se disse que toda a atitude do consumo, e por extensão da cultura de massa em geral, é a de erotização do cotidiano, com o apelo sensual/sexual de toda mercadoria, seja ela um bem físico, como uma calça, seja uma música ou um filme. O reality-show estimula, de forma escancarada e assumida a polaridade do exibicionismo e do voyeurismo, que são muito facilmente intercambiáveis devido à quantidade infinita de momentos em que o espectador se identifica com o que ocorre na tela.

Embora a idéia de Adorno de que se venda o cotidiano cinzento realmente me pareça válida, eu a modificaria no sentido de que o Big Brother vende todas as cores emocionais, de comportamento e de desejo que a individualidade auto-centrada dos nossos dias acostumou-se a cultivar, seja de forma concreta, seja como uma mera imagem do que se deseja ser. Há algum tempo o diretor do programa havia dito que no Big Brother deveria haver o máximo de ódio e o máximo de amor. De fato, é necessário saturar a percepção de emotividade contraditória que as pessoas gostam de saborear em si mesmas e, ao mesmo tempo, escarnecer de sua mesquinhez ao vê-la projetada naquele que vive sob a pressão de realizar seu desejo exibicionista. Que a cada edição sejam introduzidos novos personagens, com posturas e tipos psicológicos bem diferenciados, e que atitudes, antes tomadas como tabus, como o beijo homossexual, sejam admitidas e ao mesmo tempo censuradas / condenadas, tudo isso é parte dessa oferta cultural de trazer ao palco todas as vicissitudes pelas quais passam as opções por uma individualidade qualquer.

Tal como a relação sexual adquire um ingrediente que pode torná-la mais saborosa, a saber, com um espelho que reflita toda a cena, essa multiplicidade cromática do cotidiano ganha um sabor todo especial pela mediação dessa presença universalizante da televisão. Trata-se de um enorme espelho que tem sua potência erotizante multiplicada pela quantidade de pessoas que se sabe serem também espectadores como nós. Diante disso, não me causa nenhuma uma surpresa a já prosaica situação de pessoas que, em uma festa real em seus apartamentos, param o que estão fazendo a fim de assistir a uma festa do Big Brother. De fato, a encenação espetacularizada da festa do outro já contém algo da transcendência da ficção, pelo fato de receber essa injeção cavalar da dignidade de ser um objeto de observação por milhões de pessoas. Essa lascívia de se transportar para o gozo do outro, sorvê-lo através da segurança do distanciamento dado pela tela, ao mesmo tempo em que se tripudia do quanto as pessoas estão próximas de falir, de perder, e assim sair do jogo, por não suportarem a pressão dos milhões de olhos que se dirigem para eles — isso é um tempero que realmente confere um sabor espetacular para algo que, na realidade, é apenas uma imagem. Poder manipular o gozo e a falência iminente do outro, eis aí um dos princípios desse prazer narcisista de consumir o reflexo universal dos elementos particulares e mesquinhos do próprio cotidiano.

* Professor de Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais.

23 de fev. de 2012

Vida/Tempo
Viviane Mosé, Filósofa.

Quem tem olhos pra ver o tempo? 
Soprando sulcos na pele... soprando sulcos na pele. Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto com uma navalha fina. Sem raiva nem rancor. O tempo riscou meu rosto com calma.
Eu parei de lutar contra o tempo.
Eu ando exercendo instante.
Acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando. Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim.

Por falar em sexo, quem anda me comendo é o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia porque ele me pegava à força, e por trás. 
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer, que seja com o meu consentimento; e me olhando nos olhos. Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.

12 de fev. de 2012

Isso é a vida.

(...)

Quando conseguimos compreender a vida, já estamos dentro do turbilhão que nos remove a consciência e as entranhas do corpo e da alma a cada dia, cada hora, cada minuto, o tempo todo. Quando aprendemos mantermo-nos de pé neste turbilhão, o furacão emocional, adormecido pela razão, passa uma rasteira em nosso frágil equilíbrio. Quando acostumamo-nos às tonteiras das emoções e conseguimos equilibrar na corda bamba das paixões, pensamos (insanos) que estamos prontos para viver.

Ilusão.


Nunca aprendemos a viver, vivemos.
Nunca conhecemos o viver, vivemos.
Nunca sabemos o caminho, caminhamos.
Não é bom nem ruim. Simplesmente é. Um dia bem, um dia mal, um dia talvez, um dia “até quem sabe”.

É assim.

Se é que aprendi alguma coisa, aprendi que: Não é importante saber, é importante sentir. Para sentir a mim preciso do outro, das relações não rotuladas. O outro que é meu inferno e meu céu. O outro que é meu corpo e minha alma. O outro que me cativa e me distancia. O outro que odeio e que amo.

A vida não é quando. A vida não é como. A vida não é onde. A vida é quem. Quem sou com o outro. Quem sou comigo. Quem sou nos inesperados de cada momento. Quero que você se excite com minha alegria. Quero que você se arrepie com minha voz. Quero que você sonhe nos meus sonhos.
Mas também...
Quero que você escute meu silêncio. Quero que você me acolha na fraqueza. Quero que você enxugue minhas lágrimas (mesmo à distância). Quero que você sinta, nas palavras, nos e-mails, na minha presença, na minha ausência. Mas me sinta. Estou em toda parte do seu turbilhão chamado vida. Estou em todos os desequilíbrios de seus “inesperados”. Estou em cada molécula de oxigênio que você respira. Não vivo porque quero ser, vivo por que estou em você.

Cristina Angélica Silveira.

15 de jan. de 2012

Cegueira

Cegueira
by André Felipe Souza Cecílio

Um cego um dia
me ensinou a enxergar sem os olhos.
Porque os olhos nos dão um mundo pronto,
cuja luz é captada e interpretada
como mundo real.
E a luz é o supérfluo das coisas.

As mãos, a boca,
o nariz, os ouvidos
e até mesmo a intuição
nos dão um mundo mais repleto
e mais completo
do que apenas os olhos,
pois não nos dão mundo nenhum,
e, sim, potenciais de mundos plurais
a serem desenvolvidos .
E esse potencial deve ser trabalhado,
imaginado, interpretado,
como uma grande ideia
para que o mundo, plural,
seja enfim criado.

Essencialmente, o homem é cego.
Porém a lucidez da cegueira
é limitada a momentos curtos
como a infância ou os sonhos à noite.
Isso, quando ainda se sonha.
Ensinam os homens às crianças
que se deve enxergar bem os mundos.
Contudo, ensinam-nas a abrirem sempre os olhos.
Erro crasso.

Além da luz, a realidade
é bem mais ampla do que aquela
que reside na superficialidade material das coisas.
Entretanto é sutil, imperceptível
a olho nu. Para vê-la,
é preciso aprender a fechar bem os olhos.

A cegueira é uma virtude.
Maior, talvez, do que todas
as virtudes dos homens que enxergam com os olhos nus.
Pois o cego não é o aquele que não sabe enxergar,
mas, sim, aquele que  aprendeu a fazê-lo
diferente dos outros homens:
De maneira ativa.

* André Felipe Souza Cecílio é cronista, contista e poeta, músico, compositor
e autor do livro de poesias Conversa Com Versos, lançado em 2010.

17 de set. de 2011

vinte e quatro de Março

Com a licença de todos, um post pessoal hoje.
Em memória de José Cecílio dos Santos.

André Felipe Souza Cecílio*


Naquela noite, eu dormi.
Sonhei com a alegria,
Os sorrisos e as brincadeiras,
Sua voz, abraços e conversas.
Vi seus olhos, e eles me viam
E sorriam,

Mas acordei e vi que ainda era noite.
Os sorrisos já não estavam ali,
A voz, os abraços, conversas e alegrias
Eram apenas ecos que soavam do passado,
De quando o sol ainda brilhava
E a vida parecia não ter fim.
Olhei para os olhos,
Mas estes já não me viam.
Nem sorriam.

Já era noite,
O cansaço tomou conta de ti,
Então você dormiu.
Dormiu e subiu até onde
Seus sonhos e sua vida o levaram,
E junto à lua você foi morar,
Presenteando-a com seu brilho.
Enquanto subia, deixava para trás
Os sorrisos, os olhares e os amores
Em forma de canção, gravada eternamente
Em nossos corações e pensamentos.

Ah, a vida...
“Não vale a pena e a dor de ser vivida”.
A lembrança do seu olhar,
O peso do fardo em nossas costas,
O cansaço.
Desejo de dormir...
Dormir e ter uma nova oportunidade
De olhar em seus olhos
E eles me verem.


"Estavam todos dormindo
estavam todos cansados.
Dormindo
Profundamente." (Manuel Bandeira)


* André Felipe Souza Cecílio é cronista, contista e poeta, músico, compositor
e autor do livro de poesias Conversa Com Versos, lançado em 2010.

20 de jun. de 2011

Foi mal

Foi mal
Regina Teixeira da Costa

Um amigo disse, em tom de brincadeira, e se toda brincadeira traz um fundo de verdade, consideremos: “Depois da expressão ‘foi mal’, ninguém mais arca com nada. Basta dizer: foi mal”. O que se pode fazer quando alguém estraga seu sofá, quebra seu copo, seu jarro preferido e não pode ressarcir você?
Podemos nos perguntar se o foi mal já não seria um pedido de desculpas, uma admissão da responsabilidade. Mas foi mal como se não fosse nada é simplesmente duro de engolir. Aliás, pode virar uma indigestão o tanto de coisas que precisamos relevar nas nossas convivências. Responsabilidades incluem as consequências do ato, seja ele de que natureza for. Mas quem quer saber disso?

Somente a constatação do erro, em algumas famílias, redime. Melhor seria uma conversa séria, coisa difícil, pois as pessoas não suportam críticas, não gostam de repreensões e o colocam como “o chato”. Fogem do assunto, escorregam, desviam quando a conversa não vai para o lado que agrada. Aliás, é próprio da nossa sociedade gratificar demais, promover muita felicidade, muita diversão e preparar mal os filhos para a frustração.
Desse modo, temos adultos infantilizados, adolescentes de até os 30 anos ou mais, com preguiça de amadurecer como sinônimo de aborrecimento, incluindo assumir perdas até então desnecessárias. Nestes tempos de promoção da felicidade, nem sempre os filhos aceitam repreensões, tampouco desejam independência. Uma incoerência e tanto! Acham desaforo ser cerceados!

Educar é um ato de amor. Ensinar a assumir o feito, reparar, se desculpar é a melhor saída, sem dúvida. Mesmo que sejam considerados caretas, chatos, é preciso fazê-lo. Nem sempre podemos apenas agradar. Ter medo de contrariá-los é fugir da árdua tarefa impossível de educar.
Relacionamentos familiares, por mais que desejemos que sejam leves e fáceis, sempre são custosos e precisam de perícia e habilidade. Algo que nem sempre acompanha nossa pouca sabedoria. O problema da educação ocorre em toda família. Tudo que uma mãe e um pai façam, por mais perfeito ou imperfeito, sempre apresentará falhas. Não há como não errar, quando o quesito é educação. Confiança nos pais e no diálogo como solução de conflitos é um passo.
A violência física na educação tem sido bastante discutida e enquadrada em leis cada vez mais restritivas. De fato é ineficaz, produz medo, covardia, agressividade. Há projetos de lei a serem aprovados proibindo o castigo físico na educação, desde a palmada até o beliscão. As leis também protegem os adolescentes infratores de penas muito duras, criando as leis alternativas, com intenção de reinserção social.
Como tudo na vida tem furos, muitos adolescentes marginalizados se aproveitam dessa proteção, assumindo crimes dos parceiros mais velhos, sabendo de antemão que são protegidos pela lei. Nunca conseguiremos atingir a perfeição, nem uma vida social ideal, pois sempre são abertas brechas que escapam de toda previsão.

O real é inapreensível na totalidade, então sempre haverá necessidade de dialogar sobre o que surge, o novo, o acaso. Quando a lei alcança uma vitória, o homem consegue inventar maneiras de escapar. Submeter-se à lei exige sacrifícios de toda natureza. Ela frustra satisfações desmedidas nos exigindo limites. Se por um lado nem todas as famílias conseguem transmitir essa lei a troco do amor, por outro, nem todos os filhos acolhem as suas exigências ou se submetem a elas.
E a lei se transmite pela palavra. Somos sustentados pelo discurso; quando nos apropriamos dele já estamos entrando no jogo da vida social, da inclusão do outro, da convivência. Por isso mesmo, dialogar desde cedo com os filhos sem deixar de ocupar o lugar de autoridade é estruturar os filhos para a vida.

Quando se educa é preciso um olhar e uma escuta que possibilitem entender a subjetividade do filho e acolher suas dificuldades, e não apenas se livrar de seus problemas. Esse é um problema de muitas famílias que não entendem que o sintoma do filho foi feito em família e deve ser acolhido e cuidado. Só assim a responsabilidade compartilhada permitirá suportar eticamente esse sintoma. Mas, para isso, é preciso reconhecer o foi mal.

Publicado no jornal Estado de Minas, edição de 19/06/2011. Fonte: UAI