16 de ago. de 2009

Aufklärung - partes 5 e 6

Partes: 1 e 2 - 24/05/09
Partes: 3 e 4 - 25/05/09
Partes: 5 e 6 - 16/08/09
Partes: 7 a 10 - 08/05/10

5 - Para este esclarecimento [Aufklärung] porém nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! (Um único senhor no mundo diz: raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade. Que limitação, porém, impede o esclarecimento [Aufklärung]? Qual não o impede, e até mesmo o favorece? Respondo: o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento entre os homens.
O uso privado da razão pode, porém muitas vezes ser muito estreitamente limitado, sem, contudo, por isso impedir notavelmente o progresso do esclarecimento.
Entendo, contudo, sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem, enquanto SÁBIO, faz dela diante do grande público do mundo letrado. Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiado.
Ora, para muitas profissões que se exercem no interesse da comunidade, é necessário certo mecanismo, em virtude do quais alguns membros da comunidade devem comportar-se de modo exclusivamente passivo para serem conduzidos pelo governo, mediante uma unanimidade artificial, para finalidades públicas, ou pelo menos devem ser contidos para não destruir essa finalidade.
Em casos tais, não é sem dúvida permitido raciocinar, mas deve-se obedecer. Na medida, porém, em que esta parte da máquina se considera ao mesmo tempo membro de uma comunidade total, chegando até à sociedade constituída pelos cidadãos de todo o mundo, portanto na qualidade de sábio que se dirige a um público, por meio de obras escritas de acordo com seu próprio entendimento, pode certamente raciocinar, sem que por isso sofram os negócios a que ele está sujeito em parte como membro passivo.
Assim, seria muito prejudicial se um oficial, a quem seu superior deu uma ordem, quisesse por-se a raciocinar em voz alta no serviço a respeito da conveniência ou da utilidade dessa ordem. Deve obedecer. Mas, razoavelmente, não se lhe pode impedir, enquanto homem versado no assunto, fazer observações sobre os erros no serviço militar, e expor essas observações ao seu público, para que as julgue. O cidadão não pode se recusar a efetuar o pagamento dos impostos que sobre ele recaem; até mesmo a desaprovação impertinente dessas obrigações, se devem ser pagas por ele, pode ser castigada como um escândalo (que poderia causar uma desobediência geral). Exatamente, apesar disso, não age contrariamente ao dever de um cidadão se, como homem instruído, expõe publicamente suas idéias contra a inconveniência ou a injustiça dessas imposições.
Do mesmo modo também o sacerdote está obrigado a fazer seu sermão aos discípulos do catecismo ou à comunidade, de conformidade com o credo da Igreja a que serve, pois foi admitido com esta condição. Mas, enquanto sábio, tem completa liberdade, e até mesmo o dever, de dar conhecimento ao público de todas as suas idéias, cuidadosamente examinadas e bem intencionadas, sobre o que há de errôneo naquele credo, e expor suas propostas no sentido da melhor instituição da essência da religião e da Igreja.
Nada existe aqui que possa constituir um peso na consciência. Pois aquilo que ensina em decorrência de seu cargo como funcionário da Igreja, expõe-no como algo em relação ao qual não tem o livre poder de ensinar como melhor lhe pareça, mas está obrigado a expor segundo a prescrição de um outro e em nome deste. Poderá dizer: nossa igreja ensina isto ou aquilo; estes são os fundamentos comprobatórios de que ela se serve. Tira então toda utilidade prática para sua comunidade de preceitos que ele mesmo não subscreveria com inteira convicção, em cuja apresentação pode contudo se comprometer, porque não é de todo impossível que em seus enunciados a verdade esteja escondida. Em todo caso, porém, pelo menos nada deve ser encontrado aí que seja contraditório com a religião interior. Pois se acreditasse encontrar esta contradição não poderia em sã consciência desempenhar sua função, teria de renunciar.
Por conseguinte, o uso que um professor empregado faz de sua razão diante de sua comunidade é unicamente um uso privado, porque é sempre um uso doméstico, por grande que seja a assembléia. Com relação a esse uso ele, enquanto padre, não é livre nem tem o direito de sê-lo, porque executa uma incumbência estranha. Já como sábio, ao contrário, que por meio de suas obras fala para o verdadeiro público, isto é, o mundo, o sacerdote, no uso público de sua razão, goza de ilimitada liberdade de fazer uso de sua própria razão e de falar em seu próprio nome. Pois o fato de os tutores do povo (nas coisas espirituais) deverem ser eles próprios menores constitui um absurdo que dá em resultado a perpetuação dos absurdos.

6 - Mas não deveria uma sociedade de eclesiásticos, por exemplo, uma assembléia de clérigos, ou uma respeitável classe (como a si mesma se denomina entre os holandeses) estar autorizada, sob juramento, a comprometer-se com um certo credo invariável, a fim de por este modo exercer uma incessante supertutela sobre cada um de seus membros e por meio dela sobre o povo, e até mesmo a perpetuar essa tutela? Isto é inteiramente impossível, digo eu. Tal contrato, que decidiria afastar para sempre todo ulterior esclarecimento do gênero humano, é simplesmente nulo e sem validade, mesmo que fosse confirmado pelo poder supremo, pelos parlamentos e pelos mais solenes tratados de paz. Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a seguinte em um estado em que se torne impossível para esta ampliar seus conhecimentos (particularmente os mais imediatos), purificar-se dos erros e avançar mais no caminho do esclarecimento. Isto seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço. E a posteridade está, portanto plenamente justificada em repelir aquelas decisões, tomadas de modo não autorizado e criminoso.
Quanto ao que se possa estabelecer como lei para um povo, a pedra de toque está na questão de saber se um povo se poderia ter ele próprio submetido a tal lei. Seria certamente possível, como se à espera de lei melhor, por determinado e curto prazo, e para introduzir certa ordem. Ao mesmo tempo, se franquearia a qualquer cidadão, especialmente ao de carreira eclesiástica, na qualidade de sábio, o direito de fazer publicamente, isto é, por meio de obras escritas, seus reparos a possíveis defeitos das instituições vigentes.
Estas últimas permaneceriam intactas, até que a compreensão da natureza de tais coisas se tivesse estendido e aprofundado, publicamente, a ponto de tornar-se possível levar à consideração do trono, com base em votação, ainda que não unânime, uma proposta no sentido de proteger comunidades inclinadas, por sincera convicção, a normas religiosas modificadas, embora sem detrimento dos que preferissem manter-se fiéis às antigas. Mas é absolutamente proibido unificar-se em uma constituição religiosa fixa, de que ninguém tenha publicamente o direito de duvidar, mesmo durante o tempo de vida de um homem, e com isso por assim dizer aniquilar um período de tempo na marcha da humanidade no caminho do aperfeiçoamento, e torná-lo infecundo e prejudicial para a posteridade. Um homem sem dúvida pode no que respeita à sua pessoa, e mesmo assim só por algum tempo, na parte que lhe incumbe adiar o esclarecimento. Mas renunciar a ele, quer para si mesmo quer ainda mais para sua descendência, significa ferir e calçar aos pés os sagrados direitos da humanidade. O que, porém, não é lícito a um povo decidir com relação a si mesmo, menos ainda um monarca poderia decidir sobre ele, pois sua autoridade legislativa repousa justamente no fato de reunir a vontade de todo o povo na sua. Quando cuida de que toda melhoria, verdadeira ou presumida, coincida com a ordem civil, pode deixar em tudo o mais que seus súditos façam por si mesmos o que julguem necessário fazer para a salvação de suas almas. Isto não lhe importa, mas deve apenas evitar que um súdito impeça outro por meios violentos de trabalhar, de acordo com toda sua capacidade, na determinação e na promoção de si.
Causa mesmo dano a sua majestade quando se imiscui nesses assuntos, quando submete à vigilância do seu governo os escritos nos quais seus súditos procuram deixar claras suas concepções. O mesmo acontece quando procede assim não só por sua própria concepção superior, com o que se expõe à censura: Caesar non est supra grammaticos (César não está acima dos gramáticos), mas também, e ainda em muito maior extensão, quando rebaixa tanto seu poder supremo que chega a apoiar o despotismo espiritual de alguns tiranos em seu Estado contra os demais súditos.


3 de ago. de 2009

Olhos fechados e coração aberto

Sobre o filme Antes de Partir

Cleiton Renato Rezende

Jean Paul-Sartre concorda com Martin Heidegger, quando este afirma que, facticidade é o que caracteriza a existência como lançada no mundo, ou à mercê dos fatos, ou ao nível dos fatos e entregue aos seus determinismos.

Os personagens principais da obra cinematográfica intitulada Antes de partir são Edward Cole e Carter Chambers. Dois homens que descobrem que estão com câncer em estágio avançado e se conhecem. A facticidade fez com eles partilhassem o mesmo quarto de um hospital e, juntos, escrevessem uma lista de atividades que gostariam de realizar antes de morrer.
Carter é um modesto mecânico, casado, pai de três filhos e erudito. Edward Cole, um empresário bem sucedido que, se descasou inúmeras vezes, prepotente e que se mantém distante de sua única filha, além de lhe ser hostil.

Para Sartre o homem precisa, durante a sua vida, principalmente obrigado pela experiência de situações-limite, fazer-se humano no contato com a realidade real e concreta, tal qual lhe aparece e no contato com outros seres humanos.

Diante desta circunstância, é constatado no filme o movimento que os personagens fazem apesar de seus sofrimentos, diferença de raças e níveis sociais e econômicos.
A consciência da realidade (a doença terminal) faz surgir na dupla o sentimento de falta de sentido diante da existência. Ou seja, o absurdo do nascer, viver e morrer.
A princípio, eles não encontram nenhuma explicação racional que possa ajudá-los a se posicionar diante do fato concreto (câncer) e suas conseqüências.

Neste momento, as certezas construídas na vida dos dois personagens não lhes oferecem respostas prontas que lhes orientem diante da “nova” existência concreta. É a consciência implacável do absurdo da existência.

Com isso, analisando o filme à luz do existencialismo sartreano, percebemos a impotência do indivíduo diante do que lhe é determinado pela realidade concreta. E a constatação de que a vida não esta sob o controle de nenhum individuo. Ela é uma gratuidade, porque o existir apresenta problemas sem razão que o justifique.

No filme, de acordo com a lista, os personagens realizaram as seguintes ações: uma corrida automobilística; Cole fez uma tatuagem; ambos fizeram skydiving*; eles visitaram a capital francesa, a China (Himalaia) e contemplaram as pirâmides do Egito.
É possível apreender no decorrer do filme, momentos verbalizados e outros não, em que os personagens questionam-se sobre a morte e o morrer, o suicídio, a perda da consciência, o sentido da vida e Deus.

A médica e escritora Elisabeth Kübler-Ross narrou em seu livro Sobre a Morte e o Morrer (Editora Martins Fontes), os cinco estágios vividos pelos pacientes que a eminência da morte lhes causa, que são: negação e isolamento, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. Estes cinco estágios são apresentados clara e objetivamente na convivência e diálogos entre os personagens.
Conforme a autora citada, “podemos ajudá-los a morrer, tentando ajudá-los a viver, em vez de deixar que vegetem de forma desumana”.

As reflexões demonstradas ou insinuadas para quem assiste ao filme mostram que é dentro de cada um deles que se encontra a referência necessária para as escolhas e atitudes diante da vida.
E também é possível inferir que a morte em si, não é triste, mas, triste é deixar de viver a vida, enquanto se está vivo.

Portanto, é na jornada e não no destino que existe a possibilidade do ser humano ser feliz, pois, durante o trajeto, não lhe é dado saber se irá chegar aonde deseja.
Com olhos fechados e corações abertos eles se foram: um concedeu que o outro vivesse e, este, que o outro aprendesse a viver.

* Salto de pára-quedas em que o aluno e o instrutor ficam presos um ao outro.

BIBLIOGRAFIA

HowStuffWorks - Brasil: Disponível em Acesso em 3 de Março de 2008.

ROSS-KÜBLER, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

ROHMANN, Chris. O livro das idéias: um dicionário de teorias, conceitos, crenças e pensadores, que formam nossa visão de mundo. 5 ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2000, p. 424.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. 4 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.

11 de jul. de 2009

O que é o amor?

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, na internet, na parada de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir o seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois lhe ensinaram que só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.

Amor não é medicamento. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproximará. Caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza. Ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima.

Você já ouviu muitas vezes alguém dizer: Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu. Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas. O amor, ao contrário do que se pensa, não tem que vir antes de tudo. Ele não é uma garantia de que, a partir do seu surgimento, tudo o mais dará certo.

Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir diante de você sem máscara e sem fantasia. É esta a condição. É pegar ou largar. Para quem acha que isso é chantagem, arrisco sair em defesa do amor: Ser feliz é uma exigência razoável e não é tarefa tão complicada.

Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se auto-flagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade...
Não, não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipes encantados. O amor é o prêmio para quem relaxa!

Este belo texto me foi ofertado por uma amiga...

Ps. Há preciosas informações sobre este tema em: Do Amor - Ensaio de Enigma, de Artur da Távola: Editora Nova Fronteira.

8 de jul. de 2009

Pensar a vida, saltar o Abismo

Pensar a vida, saltar o Abismo
Dulce Critelli, professora de Filosofia da PUC/SP.

Há poucos dias, ao final de uma palestra de filosofia, um rapaz me procurou dizendo que tinha sido sua dor o que o levara até lá. Sentia-se confuso e perdido na própria vida. Buscava uma palavra que lançasse luz sobre sua existência, que lhe indicasse uma saída, insinuasse como sua vida poderia ganhar sentido. O que lhe doía, simplesmente, era ser.

Quantas pessoas já não me disseram o mesmo! Assistem a conferências e a aulas de filosofia para pensar a vida. É uma atitude interessante, justamente porque a filosofia tem a fama de só tratar de questões abstratas e, por isso mesmo, de ser inútil. Também Heidegger, esse grande pensador contemporâneo, concorda que, com a filosofia, não podemos fazer nada, como construir uma ponte ou uma estrada. E, no entanto, considera, é a filosofia que faz alguma coisa conosco.

Acho que é isso o que as pessoas esperam que, ajudando-as a compreender melhor a existência, a filosofia mexa com elas e, então, possam vencer essa dor de ser. Elas não querem tratar das dificuldades e dos problemas imediatos, mas do sentido da vida.

Todos nós já sentimos essa dor de ser e, vez ou outra, com uma intensidade quase insuportável. Sentimo-nos estrangeiros em nossa própria vida. Sentimo-nos em dívida com nós mesmos. Um vazio nos invade. Nossa existência perdeu o significado. Não sabemos mais quem somos nem quem podemos ser. Queremos que alguém nos explique o viver! Que alguém nos explique quem somos e a que viemos!

A dor de ser faz parte da nossa natureza. Não agüentamos apenas ser, temos de ser nós mesmos. Não queremos repetir ninguém nem que ninguém nos copie. Também não nos basta que os outros aprovem nossa vida. É preciso que ela faça sentido para nós mesmos.

Essa dor sentida é, no entanto, apenas uma face da moeda; a outra, em que mal reparamos, é a de uma bem-aventurança. Se podemos sentir a dor de nos ter perdido de nós mesmos, é porque temos o poder de nos encontrar novamente. O que nos angustia e nos deixa aturdidos nessa historia é que, para esse individuo exclusivo que somos e para o sentido pessoal de nossas vidas, não há nenhuma referência possível. Os modelos culturais e as pessoas com quem convivemos podem nos inspirar, mas apenas isso. O resto é conosco. Temos de ser ao mesmo tempo os autores, os atores e os juízes de nosso próprio existir.

A certeza de que morreremos, mas sem saber quando, é o que muitas vezes nos empurra para essa tarefa sem referências de tomarmos nas mãos o nosso destino, a nossa história exclusiva, e de emprestarmos para a vida a nossa própria cara.

Temos pouco tempo. E tudo é risco, é aposta. É passo sobre o abismo. Que exige coragem. E preparação. Essa preparação é tarefa do pensar, da reflexão. O que a filosofia pode fazer conosco é isto: ensinar-nos a pensar. E conhecer esse “segredo” já é meio caminho andado.

Pensar (ou refletir) não é perder-se em elucubrações, análises, cálculos, infindáveis relações. Ao contrário, é estancar esse tráfico incessante de palavras e idéias em que nos atolamos e penetrar naquilo que ainda é invisível e desconhecido para nós, trazendo-o para a luz.

Pensar começa por parar (o tráfego de idéias) para pensar. Quando paramos para pensar, podemos nos observar e flagrar quais medos, fantasias, crenças e preconceitos nos têm influenciado. Flagrando-os, nós interrompemos o seu fluxo e domínio que vinham tendo sobre nós. Eles emudecem. Silenciam. E nós mesmos entramos em silêncio. E é só quando ficamos silenciosos que começamos a nos ouvir. A ouvir a voz que vem lá das nossas profundezas, sábia, revelando o sentido de nossa vida, o caminho, o gesto necessário. Enchendo-nos de coragem para o passo sobre o abismo. Transformando a dor em bem-aventurança, em vontade, em decisão. Descobrindo nosso próprio poder. Preparando-nos para ir ao enlaço de ser quem só nós mesmos podemos ser e de viver como só nós mesmos podemos viver.

4 de jul. de 2009

Poucos é ainda dizer demais.

"O método próprio da filosofia consiste em conceber claramente os problemas insolúveis em sua insolubilidade, depois simplesmente em contemplá-los, fixamente, incansavelmente, durante anos, sem nenhuma esperança, na espera. Segundo esse critério há poucos filósofos. Poucos é ainda dizer demais".
WEIL, Simone. La connaissance surnaturelle. Paris, Gallimard, 1950, p. 305.

30 de mai. de 2009

MODIGLIANI


Olá. Um excelente filme sobre o pintor Amedeo Modigliani (Modi) com Andy Garcia no papel principal. Prepare o vinho tinto que o filme já vai começar...
Bom sábado.

ps: (...) só pintarei seus olhos quando conhecer sua alma.
Imagem / pintura de Jeanne.

EMBRIAGAI-VOS

Charles Baudelaire – Poeta Francês

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez ! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embragai-vos sem cessar !
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.