17 de dez. de 2010

Desce quadrado e desanima

Desce quadrado e desanima

Extra! Extra!

Benett
Vocês que são brasileiros e “não desistem nunca”, continuem assim e não renunciem. Morram de trabalhar, pois, os seus representantes votaram a favor do aumento de salário dos parlamentares e do presidente. A proposta do reajuste de mais de 60%, eleva a atual remuneração de R$ 16,5 mil para R$ 26,7 mil, a partir de 2011. Sendo assim, você precisa morrer de trabalhar ou morre trabalhando ou trabalha pra morrer ou morre dando trabalho ou... chega. Por ora, é só.

Ora!

É interessante notar a data em que se votam certas coisas neste país. Exatamente a poucos dias do natal, anunciam a próxima decisão; ou será imposição? No momento em que a maioria dos brasileiros estão mais desatentos como de costume, gastando como nunca e pouco ou nada preocupados com o amanhã. Curiosa ocasião para se estabelecer alguma coisa, não acham?

Malandragem? Oportunismo?

Não descarto a primeira opção, mas, creio mesmo, que a época seja mais adequada, sabe o porquê? Bebida! É, muita bebida. Você mesmo aí, que está lendo isso e que foi obrigado a votar, tome nota: a falta de lucidez decorrente do consumo de álcool que nunca é moderado, é que te salva. Te salva e faz tão bem que, acabou de ser comprovado estatisticamente. Segundo o IBGE, os dados levantados pela Pesquisa de Orçamentos Familiares indicam que o brasileiro tem consumido menos arroz e feijão e mais cerveja.

Uma ultima coisa pra você anotar. E é grave.

A bebida não é e nunca foi determinante para a sua falta de lucidez, ela só piora, às vezes, o seu quadro. Sendo assim, procure ficar um pouco mais consciente de suas ações e trate, também, de se inteirar sobre o que os “seus” representantes andam aprontando. Quem sabe, se você estiver vivo e lúcido nas próximas eleições, possa votar em alguém que respeite o seu voto e, principalmente, o seu trabalho. Que respeite o fato de você existir.

Agora, se eu estiver vivo e esta pessoa que você votou atender aos requisitos acima, me chame pra tomar uma gelada.

Cleiton Rezende.



A imagem é criação do cartunista Benett. Disponível em [http://chargesbenett.wordpress.com]

15 de dez. de 2010

Fragmentos literários: O Mito de Sísifo

A Liberdade Absurda.

(...)

O que sei, o que é certo, o que não posso negar, o que não posso recusar, eis o que interessa. Posso negar tudo desta parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos esse desejo de unidade, esse apetite de resolver, essa exigência de clareza e de coesão. Posso refutar tudo neste mundo que me rodeia, que me fere e me transporta, salvo o caos, o acaso-rei e a divina equivalência que nasce da anarquia. Não sei se este mundo tem um sentido que o ultrapassa. Mas sei que não conheço esse sentido e que por ora me é impossível conhecê-lo. O que significa para mim significação fora da minha condição? Eu só posso compreender em termos humanos. O que eu toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E estas duas certezas, meu apetite pelo absoluto e pela unidade e a irredutibilidade deste mundo a um principio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-las. Que outra verdade poderia reconhecer sem mentir, sem apresentar uma esperança que não tenho e que não significa nada nos limites da minha condição?
Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido ou, antes, o problema não teria sentido porque eu faria parte desse mundo. Eu seria esse mundo ao qual me oponho agora com toda a minha consciência e com toda a minha exigência de familiaridade. Esta razão, tão irrisória, é a que me opõe a toda a criação. Não posso negá-la de uma penada. Por isso devo sustentar o que considero certo. (CAMUS, 2005, p.64,65)

CAMUS, Albert; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. O Mito de Sísifo. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.


[ Fragmentos comentados ]

- "Eu só posso compreender em termos humanos”.
É o que Nietzsche chamaria de Humano Demasiado Humano.

- "Se eu fosse uma árvore entre as árvores"...
Dizeres que me remetem à Náusea, de Sartre.


Ler Camus me faz bem!

12 de dez. de 2010

Fragmentos literários: Gula

O Clube dos Anjos

(...)

Memorável paella. Precedida de brindes com champanha ao Ramos e ao Abel e de vieiras com uma delicada musse de salmão. Estávamos todos eufóricos, apesar da morte do Abel. O primeiro jantar do Lucídio nos convencera que o Clube do Picadinho podia ser salvo pelo apetite, mesmo que não nos amássemos mais como antigamente e tivéssemos jogado fora as nossas vidas. Não se falou no Abel durante o jantar. Abel tinha sido restituído aos santos da sua família, nos cabia preservar o que ainda estava vivo entre nós, o que fora salvo do naufrágio. A nossa afinidade animal, a nossa fome em bando, desde o tempo em que roncávamos juntos, como porcos, ao mastigar o picadinho do Alberi. Só nos restara a fome em comum. Eu não parava de falar, mesmo com a boca cheia. André repetia que sentia sua mulher não estar ali, ela tinha sangue espanhol, o que não diria daquela paella diferente? Até o João dizer que cortar as mulheres dos jantares tinha sido uma grande decisão. Uma sábia decisão. As mulheres eram as responsáveis pelo nosso declínio. As mulheres tinham nos arrancado do paraíso, sem elas nossos rituais readquiriam sua pureza adolescente, éramos de novo os porcos contentes do bar do Alberi.

Quando Lucídio trouxe a segunda panela de paella com os grande bulbos de alho dispostos em círculo na borda, foi recebido com urros de reconhecimento. Ele era o responsável pela nossa ressurreição. André ainda tentou  protestar, sem muita convicção. A Bitinha merecia estar ali, ela que amava paellas, que era uma estudiosa de paellas. Seu protesto foi sepultado sob os nossos roncos ferozes. Eu lembrei o Discurso  do Cio que o Ramos fizera, na hora do conhaque, depois de um memorável jantar com trufas. Devemos as trufas e a civilização ao cio das fêmeas, dissera Ramos, erguendo seu copo e propondo um brinde às fêmeas e às suas glândulas. As trufas cheiravam a um hormônio do porco, e as porcas no cio as localizavam e desenterravam, freneticamente, atrás do amor.
"Em vez de um marido, encontraram uma espécie de nódulo vegetal, como acontece com muitas moças hoje em dia", dissera Ramos. As maravilhosas trufas que tínhamos comido eram o produto da frustração amorosa de porcas anônimas. Todo o prazer gastronômico era uma forma de cooptação do cio, segundo Ramos. Interrompemos um processo orgânico da planta ou do bicho para comê-los e gastamos a nossa própria voluptuosidade, o nosso cio desgarrado, no prazer de comer. (VERÍSSIMO, 1998, p.53,54)

VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Clube dos Anjos - Gula. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

* Uma deliciosa opção!

11 de dez. de 2010

Fragmentos literários: Luxúria

A Casa dos Budas Ditosos

(...)

Algo me diz, falava-lhes eu... Ha-ha-ha-ha! Ha-ha-ha-ha! Ai, meu Deus... Desculpe a crise de riso, mas eu me senti, não sei por quê, meio Lacan, declamando todas aquelas baboseiras desconexas e ininteligíveis, e os crentes tentando decifrá-lo como quem decifra Nostradamus ou a pitonisa de Delfos, quando é claro que ele mesmo não sabia que merda estava falando, suspeito que tomava qualquer coisa para o juízo.
Descia as ventas numas quatro carreirinhas gordas e ia à luta. O que se fala e escreve de merda engalanada na França é inacreditável, eu mesma nunca engoli nada dessa empulhação que confunde ininteligibilidade e chatice com profundidade, nem Lacan, nem Godard, nem Robbe-Grillet, nada dessas merdas, tudo chute e chato, e quem gosta é porque foi chantageado a gostar e, no fundo, se sente burro. Sartre ainda tinha umas coisas, se bem que L'être et le néant é a mãe dele, mas ainda tinha umas coisas, às vezes era arrebatador. Não, não tenho nada que me sentir como Lacan, eu... Ha-ha-ha, desculpe, é dessas crises de riso que a gente não consegue deter. Lacan... Imagine a cena, um maluco furibundo, com o miolo cheio de cocaína ou anfetamina, despejando aquela enxurrada amazônica de non sequiturs esbugalhados em cima de uma platéia que nunca entendeu e até hoje vive tentando comicamente entender e terminando por falar do mesmo jeito e acabando invariavelmente por infelicitar alguém.
Ele não escreveu porque, provavelmente, não conseguia sentar para escrever. Tem gente assim. Eu também, quando ficava ligadona, era assim, não parava quieta, nem na cama. Devia haver um nome para essa doença, ou pelo menos para alguns de seus sintomas. Não a doença dele, que era uma variante neurológica maligna de glossolalia, nada de extraordinário. Eu me refiro à doença dos religiosos dele, os iniciados, os sacerdotes e, naturalmente, os que usam o tal "tempo lógico" - como se o Mestre dos Mestres jamais houvesse proferido alguma coisa de lógico - mais espertamente, só deixando o sofrente falar dois minutos e mandando-o às favas para ter tempo de atender a mais noviços. Lógico para o bolso; é uma. (RIBEIRO, 1999, p.92)

RIBEIRO, João Ubaldo. A Casa dos Budas Ditosos - Luxúria. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.

* Uma indizível obra. Prazer garantido!

8 de dez. de 2010

Garimpo de Notícias

Torcedores poderão comprar "Pedacinhos do Maracanã"

A secretária Márcia Lins revela que pequenas pedras das arquibancadas serão adquiridas como souvenirs, e outras partes serão leiloadas.
"É apenas um souvenir, mas o torcedor que desejar ter uma lembrança material do Maracanã poderá fazê-lo em breve. Isso porque a Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer do Rio de Janeiro colocará à venda um lote de cinco mil pequenas pedras que têm sido retiradas durante a demolição das arquibancadas do estádio. O preço, que ainda não foi divulgado, será simbólico."

Fonte: Globo.com - 07/12/2010.

- Aqui você, utilize o dinheiro para comprar um livro (não Caras, jornais baratos e afins) ou um prato de comida para quem está com fome. Mas comprar concreto "simbólico", refugo de obra, tenha dó!

Dilma fará visita ao Complexo do Alemão dia 21

A presidente eleita, Dilma Rousseff, fará uma visita ao Complexo do Alemão, no Rio, no próximo dia 21/12, quando completar um mês do início dos conflitos que levaram à ocupação do local pela polícia e Forças Armadas.

- Aqui, muito pior que comprar pedra é saber que a visita da dona vai virar filme. E que tem um monte de gente que vai ver, além, claro, daqueles que compraram as pedras.

Últimas:

Padre Fábio de Melo lança DVD em show nesta quarta, 08/12 em BH. E ontem, terça, o pai de Michael Jackson lançou um livro sobre o filho, aqui, também, na capital de Minas.

- Desisto. Pode comprar pedra até de crack que é muito melhor, tá?

23 de nov. de 2010

Saber e Sofrer

Saber e Sofrer*

Dizer que o conhecimento faz sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito. Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas. Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.

Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.

Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que, responsável por uma crítica geral a tudo e a todos, que o cercavam em sua experiência monacal.

Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.

A doença é o que cura

Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.

Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento, como se ele fosse, apenas, um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas, se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi à mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais, ou melhor, sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.

Conhecer para quê?

Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo, sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.

A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que, o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.

* Publicado na Revista Vida Simples em 2008. Por Márcia Tiburi, graduada em filosofia e artes, mestre e doutora em filosofia pela UFRGS.

17 de nov. de 2010

A festa

A festa

por André Felipe Souza Cecílio

A movimentação na casa da Lili havia começado cedo. Mal ela havia acordado e todos da casa já estavam conversando e indo e vindo o tempo todo. Ao contrário do que é de costume, dessa vez ninguém tinha vindo até o quarto de Lili para acordá-la e, após um beijo de bom-dia, levá-la até a mesa de café sobre a qual estaria servido o mais belo lanche da manhã de todo o mundo. Por isso, Lili permaneceu deitada, imaginando o que estaria acontecendo do outro lado da porta.
Na sala, Dona Carmen falava sem parar enquanto distribuía balões para cada um encher. Sua animação era evidente.
- Parece até que o aniversário é dela! – comentou o Lucas, enquanto enchia mais um balão cor-de-rosa. Ah, mas se eu não faço, ninguém mais tem disposição pra fazer. Às vezes eu acho que a Lili é quem faz aniversário, mas vocês que envelhecem! – respondeu Dona Carmen, agora procurando por um pacote de guardanapos na gaveta do balcão da sala – E mesmo por quê, vocês sabem bem que festa de aniversário é coisa muito importante nessa fase dela.
- Nisso ela tem razão – concordou Adelaide, que acabara de entrar na sala com uma imensa travessa de salgadinhos – Pode parecer bobagem, mas essas coisinhas são muito significativas pra ela.

Além disso, se nós podemos oferecer isso a ela, é esse o nosso dever. Tem tanta família aí que é doida pra fazer uma festinha de aniversário e não tem condições… – arrebatou Carmen.
Aos poucos, a sala ia se enchendo de balões verdes, rosas, azuis, roxos, vermelhos e de tantas outras cores que faziam o aposento parecer com as casas dos mais belos contos-de-fadas. Agora, Lucas e Adelaide se botaram a agrupar os balões em belos arranjos para, então, pendurá-los no teto e nas paredes ou deixá-los soltos em algum canto vazio. Dona Carmen, por sua vez, passava um pano úmido pelos móveis e continuava a dar pequenas ordens para os outros dois.
- Vocês tratem de manter esses balões no lugar e não baguncem a sala! Já, já eu vou sair com a Lili para comprar um presentinho pra ela e distraí-la até que dê a hora da festa. Aí, quando os convidados começarem a chegar, vocês me liguem, ok?
- Sim, senhora! – brincou Lucas, batendo continência.
- Bobo!
- Ih!, começou… Ô Carmen, que é que você vai comprar pra ela? – perguntou Adelaide, mudando o assunto.
- Ah, menina, vou comprar uma boneca linda que eu vi vendendo no shopping outro dia. Você precisa ver: é linda, parece até real!
- Ai, mas será que ela ainda gosta de bonecas?
- Eu não sei, mas essa não tem jeito de não gostar. É daquelas personalizadas, já viu? Eu dei uma foto da Lili pro vendedor e encomendei uma que fosse muito parecida com ela, como se fosse a filha. Ela vai adorar!
- Verdade… – concordou Adelaide – e essa filha é boa, porque não chora, não grita, não…
- Não morre… – disse Lucas.

Fez-se silêncio na sala, como se as duas mulheres tivessem perdido as vozes com a fala do Lucas. Só depois de alguns segundos que Carmen conseguiu falar algo:
- Ai, credo, Lucas!
- Uai, e não é verdade? – defendeu-se o outro.
- Em pleno clima de festa vem falar de morte. Cruz credo!
- Ih, foi só um comentário, desculpem! – fez uma pequena pausa – E de qualquer forma, ela já ta um tanto grandinha e já entende esse tipo de coisa, não acham?
Dessa vez, ninguém quebrou o silêncio. Cada um manteve-se entretido em sua atividade sem sequer olhar para o lado. Só quando Carmen terminou a limpeza que ela disse:
- Vou acordar a Lili agora e já vamos sair. Deixem tudo pronto, que os convidados não devem demorar. Aliás, ta faltando alguma coisa que vocês queiram que eu compre por lá?
- Não. – respondeu Lucas.
- Ah, tem sim! É que eu não tive tempo de ir em nenhuma loja, aí não comprei o presente dela, sabe?
- Hum…, entendo. E o que é que você quer que eu compre pra ela?
- Eu pensei em um vestido. Ela fica tão lindinha em vestidos, ainda mais se for um rosinha bem clarinho, não acha?
- Ta certo – concedeu Carmen, com um sorriso – mas você vai me passar o dinheiro agora ou depois?
- Passo agora. Deixei um pouco guardado na bolsa exatamente pra isso. – e foi buscar as notas na bolsa – Toma. E se sobrar troco, compre um sorvete pra ela.
- Sorvete não. Ela vai acabar arrumando uma dor de garganta, aí você já viu…
- Verdade… Nessa idade a saúde é muito fragilzinha. Ah, você compra alguma outra coisinha então.
- Ta bom. Deixe eu ir lá então.

Dona Carmen, então, foi até a porta do quarto de Lili, abriu-a e, ao ver que ela estava acordada, disse, sorrindo:
-Feliz aniversário, Lili!
Lili, que sempre foi um pouco tímida, apenas sorriu de volta e se pôs sentada na cama. Dona Carmen foi até a cômoda no canto do quarto, pegou um vestido numa gaveta e deu para Lili, juntamente com uma pequena sandália de couro claro.
- Vou levar você para passear e comprar um presente lindo. Vamos?
Com a ajuda de Carmen, Lili se vestiu e saiu com ela, parando antes para receber os abraços de Lucas e de Adelaide. Assim que as duas saíram, Adelaide comentou:
- Ai, ai… Ela ta tão felizinha, né?
- Ta… Mas, também, quem não estaria? Hoje, ela é uma princesa igual às dos contos de fadas.
Dentro de poucos minutos, a decoração estava pronta. Lucas e Adelaide, então, se puseram a conversar sobre a festa e imaginar quem viria e se Lili ficaria mesmo feliz. Não demorou muito para que a campainha soasse, anunciando a chegada do primeiro convidado. Era Zezé, um amigo de Lili. Assim com os anfitriões, ele estava muito animado e mal podia esperar para ver Lili.

Aos poucos, foram chegando todos os amigos e familiares. O Antônio e suas duas filhas, a Didi, o Léo, o Fernando e a Luísa, o João, o Pedro e a Carlinha, todos estavam lá. Então, Adelaide e Lucas ligaram para a Carmem, avisando que já era hora de trazer Lili de volta.
Todos na festa estavam ansiosos pela chegada da aniversariante, de modo que, quando Lucas anunciou que ela já estava a caminho, fez-se absoluto silêncio, eventualmente quebrado por uma tosse ou um pigarro. Adelaide foi até a cozinha e retirou do forno um lindo bolo de chocolate branco e morando, coberto com glacê cor-de-rosa e já com todas as velinhas esperando por serem acesas, e colocou-o no centro da mesa.

Quando a campainha soou, todos se levantaram e, mal Lucas havia aberto a porta, um grito em uníssono de “Surpresa!” ecoou por toda a casa. Do outro lado da porta, Dona Carmen aplaudia e ria diante do olhar alegre de Lili. Vestindo o vestido novo, que era rosa e rendado igual ao das sinhás de muito tempo atrás e carregando a nova boneca no colo, como se fosse, realmente, a sua filha, Lili entrou na sala e recebeu abraços e cumprimentos de todos.
- Parabéns!
- Nossa, como você ta linda!
- Que Deus te abençoe sempre!
- E essa boneca? Qual o nome dela? – diziam.
- É Laura Diniz da Silva e Couto. É minha filha – respondia Lili, fazendo questão de apresentar a boneca, enquanto a ninava.
Diante dessa resposta, todos se assustavam um pouco, mas logo faziam outras perguntas e comentários e esqueciam-se de vez da boneca – ou tentavam, pois Lili, a todo momento, brincava de fazer cócegas na boneca e tentar ensiná-la a falar palavras como “mamãe” ou “oi”. Contudo, com o tempo todos se acostumavam e também acabavam brincando com a filha de Lili.
Todos estavam se divertindo bastante, para a alegria de Dona Carmen, Lucas e Adelaide, que também sorriam e se deliciavam com as conversas de família e com os casos tão repetidos e, ao mesmo tempo, tão incrivelmente novos. Lili estava assentada, conversando com os seus amigos Zezé, Didi e Léo, sempre com a boneca no colo.

Mas nenhuma alegria se comparou ao momento no qual apagaram-se as luzes, acenderam-se as velas e começou-se o coro em homenagem a Lili. Em seus olhos, era visível o brilho de uma criança que vive sempre em um lindo conto-de-fadas e, na hora em que se encerrou a alegre música de aniversário, Lili reuniu todas as forças que tinha, encheu os pulmões e, sob calorosos aplausos, apagou todas as oitenta e nove velinhas sobre o bolo.

Disponível em: http://conversacomversos.wordpress.com/