3 de mar. de 2011

Fragmentos literários: Perguntas de criança...

Perguntas de criança...

Há muita sabedoria pedagógica nos ditos populares. Como naquele que diz: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencê-la a beber a água...” De fato: se a égua não estiver com sede, ela não beberá água por mais que o seu dono a surre... Mas, se estiver com sede, ela, por vontade própria, tomará a iniciativa de ir até o ribeirão. Aplicado à educação: “É fácil obrigar o aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender aquilo que ele não quer aprender...”

Às vezes eu penso que o que as escolas fazem com as crianças é tentar forçá-las a beber a água que elas não querem beber. Bruno Bettelheim, um dos maiores educadores do século passado, dizia que na escola os professores tentaram ensinar-lhe coisas que eles queriam ensinar, mas que ele não queria aprender. Não aprendeu e, ainda por cima, ficou com raiva. Que as crianças querem aprender, disso não tenho a menor dúvida. Vocês devem se lembrar do que escrevi, corrigindo a afirmação com que Aristóteles começa a sua Metafísica: "Todos os homens, enquanto crianças têm, por natureza, desejo de conhecer..."

Mas o que é que as crianças querem aprender? Pois, faz uns dias, recebi de uma professora, Edith Chacon Theodoro, uma carta digna de uma educadora e, anexada a ela, uma lista de perguntas que seus alunos haviam feito, espontaneamente:
Por que o mundo gira em torno dele e do sol? Por que a vida é justa com poucos e tão injusta com muitos? Por que o céu é azul? Quem foi que inventou o português? Como foi que os homens e as mulheres chegaram a descobrir as letras e as sílabas? Como a explosão do Big Bang foi originada? Será que existe inferno? Como pode ter alguém que não goste de planta? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um cego sabe o que é uma cor? Se na arca de Noé havia muitos animais selvagens, por que um não comeu o outro? Para onde vou depois de morrer? Por que eu adoro música e instrumentos musicais se ninguém na minha família toca nada? Por que sou nervoso? Por que há vento? Por que as pessoas boas morrem cedo? Por que a chuva cai em gotas e não tudo de uma vez?

José Pacheco é um educador português. Ele é diretor (embora não aceite ser chamado de diretor, por razões que um dia vou explicar...) da Escola da Ponte, localizada na pequena cidade de Vila das Aves, ao norte de Portugal. É uma das escolas mais inteligentes que já visitei. Ela é inteligente porque leva muito mais a sério as perguntas que as crianças fazem do que as respostas que os programas querem fazê-las aprender. Pois ele me contou que, em temos idos, quando ainda trabalhava numa outra escola, provocou os alunos a que escrevessem numa folha de papel as perguntas que provocavam a sua curiosidade e ficavam rolando dentro das suas cabeças, sem resposta.

O resultado foi parecido com o que transcrevi acima. Entusiasmado com a inteligência das crianças - pois é nas perguntas que a inteligência se revela -, resolveu fazer experiência parecida com os professores. Pediu-lhes que colocassem numa folha de papel as perguntas que gostariam de fazer. O resultado foi surpreendente: os professores só fizeram perguntas relativas aos conteúdos dos seus programas. Os professores de geografia fizeram perguntas sobre acidentes geográficos, os professores de português fizeram perguntas sobre gramática, os professores de história fizeram perguntas sobre fatos históricos, os professores de matemática propuseram problemas de matemática a serem resolvidos, e assim por diante.

O filósofo Ludwig Wittgenstein afirmou: "Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo". Minha versão popular: "As perguntas que fazemos revelam o ribeirão onde quero beber..." Leia de novo e vagarosamente as perguntas feitas pelos alunos. Você verá que elas revelam uma sede imensa de conhecimento! Os mundos das crianças são imensos! Sua sede não se mata bebendo a água de um mesmo ribeirão! Querem águas de rios, de lagos, de lagoas, de fontes, de minas, de chuva, de poças d’água... Já as perguntas dos professores revelam (perdão pela palavra que vou usar - é só uma metáfora, para fazer ligação com o ditado popular!) éguas que perderam a curiosidade, felizes com as águas do ribeirão conhecido... Ribeirões diferentes as assustam, por medo de se afogarem... Perguntas falsas: os professores sabiam as respostas... Assim, elas nada revelavam do espanto que se tem quando se olha para o mundo com atenção. Eram apenas a repetição da mesma trilha batida que leva ao mesmo ribeirão...

Eu sempre me preocupei muito com aquilo que as escolas fazem com as crianças. Agora estou me preocupando com aquilo que as escolas fazem com os professores. Os professores que fizeram as perguntas já foram crianças; quando crianças, suas perguntas eram outras, seu mundo era outro... Foi a instituição “escola” que lhes ensinou a maneira certa de beber água: cada um no seu ribeirão... Mas as instituições são criações humanas. Podem ser mudadas. E, se forem mudadas, os professores aprenderão o prazer de beber de águas de outros ribeirões e voltarão a fazer as perguntas que faziam quando eram crianças.

ALVES, Rubem. Conversas sobre Educação. 10. ed. Campinas, SP: Verus Editora, 2010. p.25-28

26 de fev. de 2011

Manhã de Integração

Manhã de Integração com os pais e alunos do 6º ano do Colégio São Paulo da Cruz

Obras apresentadas e comentadas:

Rubem Alves – Conversas sobre Educação
Janusz Korczak – Quando eu voltar a ser criança
Flávio Gikovate – Os Sentidos da Vida
Immanuel Kant – À paz perpétua

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Clique: Que é esclarecimento (Aufklarung), de Kant

(+) Comentários sobre o texto:
Clique: Aprender a Ensinar, de Franklin Leopoldo e Silva







Cleiton Rezende

18 de fev. de 2011

Fragmentos literários: Aprender a ensinar

Aprender a ensinar
Franklin Leopoldo e Silva*

Em nosso modo habitual de definir as coisas, as oposições desempenham um papel muito relevante. Conhecemos o preto por oposição ao branco, o frio por oposição ao quente, o sólido por oposição ao líquido; também sabemos o que é muito por oposição a pouco, o diferente por oposição ao idêntico e múltiplo por oposição ao uno. Estendendo esta oposição às relações humanas, fazemos o mesmo jogo quando opomos o pai ao filho, o marido à esposa e o amigo ao inimigo. Parece que discernimos tudo com mais nitidez quando logramos levar as diferenças até a oposição. E é assim também que julgamos saber o que é ser professor quando contrapomos esta condição à do aluno. Aliás, este é um daqueles casos em que definir por oposição permite extrair várias conseqüências em termos de conduta, de direitos e de deveres, e até de posição hierárquica.

Entretanto, não é difícil perceber que tais distinções nos permitem definir os termos na exata medida em que os relacionamos, no sentido de estabelecer uma dependência mútua. Isto significa que definir por oposição é conhecer uma coisa pela outra, o que, no limite, forma uma rede de relações em que cada coisa é conhecida por meio de outra, o que implica sempre a presença de pelo menos dois termos. O que nos permite dizer, então, que as oposições servem muito mais para compreender o modo como as coisas se ligam do que a maneira pela qual se excluem. É por isso que a oposição deixa de ser útil no conhecimento e na experiência de vida quando a traduzimos em separação pura e simples. E esta é uma tentação freqüente, na medida em que nos inclinamos a entender que a visão clara de cada coisa em si mesma supõe considerá-la como se existisse única e exclusivamente por si.

Nem é preciso refletir muito para notar quanto as atitudes exclusivistas contribuem para a deterioração das relações humanas. É por separar-me completamente do outro que venho a acreditar que ele está errado e, portanto, excluído da verdade que eu possuo, o que me outorga o direito de desprezá-lo, de tutelá-lo, de modificar sua conduta e, no limite, de eliminá-lo. Meu comportamento seria diverso se pudesse ver na diferença um enriquecimento da afinidade, já que o caráter produtivo das relações está na compreensão e na vivência da diversidade. Compreender a identidade é inseparável da compreensão da alteridade, porque o que sou para mim mesmo se manifesta constantemente naquilo que sou para os outros e naquilo que eles são para mim.

Assim, ninguém pode apreender autenticamente o que significa ser professor se esquecer, por um momento sequer, a oposição complementar pela qual esta significação se constrói: o aluno, tanto no aspecto da interação e do relacionamento quanto no aspecto da irredutível diferença e singularidade. Que a escola e o professor somente existam em função do aluno parece óbvio, mas esta evidência se revela ilusória assim que procuramos compreender um pouco mais detidamente a função do professor.

Porque não há nada mais paradoxal do que a relação pedagógica. Ela significa conduzir o outro à sua própria autonomia, e sem dúvida há algo de quase contraditório nesta definição e neste propósito. Toda a dificuldade da relação e da formação inerentes ao processo educativo está contida neste paradoxo.

Vivemos numa sociedade da produção em que o critério do êxito está ligado ao produto e às técnicas de produzi-lo eficientemente. Ora, qual poderia ser o produto da educação senão os indivíduos adestrados para suas tarefas e socialmente ajustados ao sistema produtivo? E como se poderia definir a tarefa do professor a não ser por essa produção e os meios pelos quais ele a desempenha satisfatoriamente? O que se espera da escola e do professor é que eles produzam indivíduos que atendam as solicitações de uma sociedade de mercado. A qualidade dos estabelecimentos de ensino é julgada por esse critério. Por isso se diz que uma sociedade equilibrada e consciente de seus valores produz bons indivíduos, isto é, produtos úteis, bem acabados e com utilização garantida.

A analogia é clara: ela supõe que educar e formar não se distingue de fabricar objetos. Esta é a causa da procura incessante de técnicas por meio das quais a educação poderia ser bem sucedida; pois o aprimoramento da tecnologia de fabricação reflete-se na melhoria do produto.
Para que esse desideratum pudesse ser cumprido, seria necessário instituir entre o professor e o aluno a mesma distinção e separação que existe entre o fabricante e o seu produto. Seria preciso que o professor fosse um técnico e o aluno uma coisa. Os fins e os meios de atingi-lo teriam de ser igualmente reificados (coisificar). Esta é, felizmente, uma tarefa absolutamente impossível de ser cumprida. Tanto nos sucessos quanto nos fracassos da educação, as causas e razões não podem ser atribuídas, como no caso da fabricação, à matéria-prima, aos recursos tecnológicos e às formas de empregá-los. Porque se trata de uma relação humana em que os meios e os objetivos devem ser experimentados na tensão das diferenças e na busca comum de uma síntese difícil e sempre incompleta entre as singularidades individuais, vividas na especificidade de situações históricas e sociais muito pouco previsíveis e controláveis.

Neste sentido, é correto afirmar que o professor existe em função do aluno, e vice-versa, desde que esta relação seja entendida não de forma contrastante e extrínseca, mas a partir de uma solidariedade profunda que só pode existir num contexto de compreensão da pessoa, na multiplicidade convergente dos aspectos, individuais e coletivos, subjetivos e histórico-sociais. As posições respectivas do professor e do aluno não estão nunca definidas, elas têm de ser construídas na experiência dialogante em que se inventam as respostas às diferentes situações. E não existiria nada de mais contrário a esta perspectiva do que a consolidação de uma oposição baseada na diferença excludente entre o ensinar e o aprender. Pois se a formação consiste na construção de uma consciência crítica, a educação formadora não pode ser modelagem, mas sim a constante renovação das ocasiões para que cada indivíduo libere sua singularidade e aprenda a vivê-la no contexto de uma sociabilidade autêntica, aprendendo ao mesmo tempo como se conduzir para que tais metas sejam ao menos um horizonte de futuro, uma esperança plausível.

A desvalorização do professor, a recusa social que o discrimina em várias dimensões, a começar pela remuneração e condições de trabalho, as críticas e as propostas de reforma do ensino em seus vários níveis expressam fundamentalmente o descontentamento do sistema que não pode deixar de perceber a característica que apesar de tudo persiste, oculta, deformada, desqualificada, como um resíduo no fundo da relação pedagógica: a emancipação, requisito para que o indivíduo possa assumir de fato sua humanidade. A transformação da educação em mercadoria aparece então como a odiosa opção moderna para a reinserção da educação e do educador na atualidade de um mundo em que a produção e o consumo, de um lado, e a competitividade e o egoísmo, de outro, representam os únicos parâmetros de julgamento.

Nesta época catastrófica em que nos coube viver, sitiados pelos paradigmas de alienação, hesitantes quanto ao presente, incertos quanto futuro, cabe tomar consciência de que precisamos aprender a ensinar o valor da resistência.

* Franklin Leopoldo e Silva é professor de História da Filosofia Contemporânea do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e autor de: Descartes, Metafísica da Modernidade; Bergson, Intuição e discurso filosófico e Ética e literatura em Sartre.

Org. PASCALE, Rosana; WILLIAM, Lara. Relações do Ensinar. São Paulo, SP: Paulus Editora. 2004. p.11-13.


Ps. Existe uma outra referência do autor no link abaixo.
Um DVD sobre Fenomenologia e Existencialismo.


27 de jan. de 2011

Elas X Deus

Olá.
Colocar Lispector e Adélia Prado no mesmo dia e respectivos fragmentos de suas obras foi proposital. Cleiton.

Fragmentos literários: A maçã no escuro

Era tão escuro como se eu procurasse o hotel e não soubesse onde ele ficava, a única coisa tocável era o livro na mão - o medo, o medo de que o senhor me acusou, não me deixava um movimento, mas depois que passou a surpresa - então rebentou o que eu mal e mal tinha contido até aquele instante - a beleza da praia rebentou, a linha fina do horizonte rebentou, a solidão a que eu tinha voluntariamente chegado rebentou, o balanço da barca que eu tinha achado bonito rebentou, e rebentou o medo da intensidade de alegria que sou capaz de atingir - e sem poder mais mentir, chorei rezando no escuro, rezando assim "nunca mais isso, oh Deus nunca mais me deixe ser tão audaciosa, nunca mais me deixe ser tão feliz, tire para sempre a minha coragem de viver; que eu nunca vá tão adiante em mim mesma, que eu nunca me permita, tão sem piedade, a graça", porque eu não quero a graça, pois antes morrer sem ter jamais visto que ter visto uma só vez! porque Deus com sua bondade permite, ouviu, permite e aconselha que as pessoas sejam covardes e se protejam, Seus filhos prediletos são os que ousam mas Ele é severo com que ousa, e é benevolente com que não tem coragem de olhar de frente e Ele abençoa os que abjetamente tomam cuidado de não ir longe demais no arrebatamento e na procura da alegria, desiludido Ele abençoa os que não têm coragem.
Ele sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas, e então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza, Ele sabe que tem pessoas que precisam fingir, porque a beleza é árida, por que é tão árida a beleza? e então eu disse para mim "tenha medo, Vitória, porque ter medo é a salvação". Porque as coisas não devem ser vistas de frente, ninguém é tão forte assim, só os que se danam é que têm força. Mas para nós a alegria tem que ser como uma estrela abafada no coração, a alegria tem que ser apenas um segredo, a natureza da gente é o nosso grande segredo, a alegria deve ser como uma irradiação que a pessoa jamais, jamais deve deixar escapar. Sente-se um estilhaço e não se sabe onde: é assim que tem que ser a alegria: não se deve saber o por quê, deve-se sentir assim: "mas que é que eu tenho?" - e não saber. Embora quando se toque em alguma coisa, essa coisa brilhe por causa do grande segredo que se abafou - eu tive medo, porque quem sou eu sem a contenção? Quando no dia seguinte eu estava sentada na barca eu pensava que tinha morrido. Mas como se tivesse, antes de morrer, comungado. (LISPECTOR, p.237,238)

LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Círculo do Livro S.A. São Paulo.

PS. A palavra "senhor" logo no ínicio, está se referindo ao outro personagem da obra, chamado, Martim. E não à Jesus Cristo.

Fragmentos literários: O homem da mão seca

O doutor ralhou comigo quando chamei minhas dificuldades de minhas doenças. É um processo, dona Antônia. Doença, processo, foi um estado de paralisia sufocante que me fez ir atrás de seus serviços. Me dei conta quando rezava: "Seja feita a Vossa vontade." Estranhei como nunca. Não. Isto, não. Maior que eu não dou conta de ser. Até então fora só lábios fluentes e a minha força, a força da minha língua guardando a culpa e o pecado como uma posse, um poder contra Ele. Foi Clara quem me instruiu sobre a coisa satânica. Não escrevo mais poéticas, não sou criatura, sou como Vós, lábios in-fluentes e língua sem força. Deus não é humano, Deus não sabe escrever, e eu que aprendi não queria fazê-lo, pois queria ser deus. Ele não sabe, faço por Ele, pratico o crime que à falta de outro nos redimirá aos dois de nossas tão diversas condições. Sim, sim, cada vez mais é assim que a compreendo, a vontade divina. Esta é a pobreza, a vontade divina governando minha vida. Pensamentos vêm aos borbotões: de que é em mim que Ele repousa seu Espírito, de que o bem compete a mim, ainda que Ele não peque, de que sou puro pecado e Ele sente culpa em mim, de que, como não me separo d´Ele hora nenhuma, fica parecendo que a culpa é minha, de que a quadratura do círculo é questão teológica, de que a física está prestes a intuir a Trindade, de que se não tivermos culpa real não há sentido em falar em salvação, de que sou deus, de que não sou deus, de que se o homem perder-se deus está perdido. Se "a criação foi sujeita à vaidade não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou", segue que Clara e o apóstolo Paulo estão dizendo a mesmíssima coisa. E mais: "Deus endurece a quem quer." Não sou eu quem o diz. "A carne não se submete à lei do Senhor; nem o pode." Se "o Espírito mesmo intercede por nós", Deus se salva a Si próprio quando me salva. Qual é meu pecado, então? A física entender a Trindade, Clara disse que vai demorar, porque agora é que chegamos ao telefone celular. E fax, que todo o mundo acha o máximo, é muito discursivo pra seu gosto. O que o homem faz é desinventar o mundo, criá-lo às avessas, o deusinho gabiru: pica,separa, corta, depois ajunta de novo e fala oooooh! Inventei o radar, chegamos ao periscópio, que parece uma pessoa muito alta na multidão virando o pescoço pra cá e pra lá, muito engraçado o periscópio, muito pobrezinho ele. Mas a visão já está inventada, e o que se vai ver, também. Tudo já está feito, o homem desfaz, pensando que faz, para ver o já feito. Vamos acabar com a canseira de preservar as graminhas e a floresta amazônica, vamos direto ao assunto: a culpa é nossa mesmo. Jesus, o pobre de Yahvé, é nos relatos quase impaciente. Não se precisa ir a inaugurações e responder cartas. Já está tudo perfeito, nada mais a fazer. (PRADO, p.57,58)

PRADO, Adélia. O homem da mão seca. Rio de Janeiro: Record, 2007.

7 de jan. de 2011

Ônus e bônus

Ônus e bônus

Cleiton Renato Rezende

Comecei a freqüentar uma sala de Alcoólicos Anônimos há dois anos. E cá entre nós, os primeiros dias são os piores. Após chegar ao referido lugar e vencido o desafio de passar pela porta, primeiro, você faz rapidamente uma varredura no local para escolher aonde vai se sentar. Segundo, verifica se existe ou não, alguém ao lado deste lugar que você escolheu. Se porventura já estiver ocupado, começa outro incômodo sobre o que aquele estranho vizinho poderá pensar de você. Enfim, após se acomodar, incomodado, claro, começa o passeio visual pelos quatro cantos do ambiente: um relógio analógico, banners com informações sobre os “12 Passos”, os “12 Conceitos” e as “12 Tradições” da Irmandade, uma cafeteira, uma lixeira, um bebedor, um quadro com uma variedade grande de avisos de todas as formas e cores, um armário de canto e uma mesa grande no centro com alguns adornos compõe o resto do cenário. E ali fiquei sentado aguardando, sem ter mais o que olhar, tentando sabe-se Deus como, sem sucesso, distrair o meu nervosismo. Nervosismo, goela seca, mãos geladas, inquietação, ansiedade, uma agonia só. São terríveis os primeiros dias, nem se fala. Terríveis, repito. E o primeiro de todos? Um desconforto intestinal clássico, além, dos outros itens já citados! É uma ocasião em que você não sabe nem aonde colocar a mão, que dirá do que vai dizer. E imaginando que você saiba o que irá falar, logo você toma consciência que não sabe como vai falar, que horas poderá falar e se o que você vai pronunciar será compreendido. Contudo, apesar das adversidades, aprendi que dizer, relatar, contar é preciso, necessário, vital. É a força invisível e mágica que move e permite transformar aqueles encontros, chamados de reuniões. De volta às minhas lamúrias e para piorar as coisas, tem o silêncio. Ter que ficar em silêncio e aguardar a sua hora de narrador também é muito doído. E você sabia que o silêncio faz barulho? É que ficar em silêncio, disse um companheiro: “te faz escutar inevitavelmente o que você tem dentro de si”. Mudando de assunto, certo dia, a sala ficou tão cheia por causa dos visitantes de outros grupos que, infantilmente receoso fiquei em não conseguir o meu "lugar ao sol" e não poder apresentar meus pensamentos. Mas no fim tudo deu certo. Sempre deu. Jamais, nunca por mais cheio que estivesse àquela sala de A.A. ninguém ficava pra trás. Todas as vozes se faziam presentes e vi nascerem muitos oradores. Papo sério. E por aí já se foram dois anos. Uma seqüência considerável de dias que, de duas em duas horas semanais eu lá estava. Lendo, ouvindo, comentando alguma coisa quando convidado ou não, atento a tudo e, principalmente, aprendendo. Vencendo as angústias e medos constatados pelo simples fato de existir e pensar, transformando meus velhos “vícios” em novos hábitos não nocivos à minha mente e corpo. Fazendo opções e escolhas mais atenciosas, de vinte em vinte e quatro horas pra ficar possível de ser alcançado, se é que você me entende. Já li em algum lugar que, por mais difícil que estejam às circunstâncias “o céu não cairá” e você, ainda, terá chances de aprender alguma coisa. Faça como eu fiz, visite uma sala de A.A., sem compromisso. E que ônus e bônus são como a escuridão e a claridade, é necessário haver o revezamento para que você os reconheça. E se por hipótese o momento de transição entre eles for doloroso demais, grite a plenos pulmões: “Concedei-nos Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras”. Pronto, é isso! E eu, quem sou? Chamam-me de Cleiton Renato Rezende e moro em Belo Horizonte/MG. A sala, ou melhor, o grupo que freqüento fica na região Oeste e é chamado de Bonança, sou Psicólogo quando convocado, professor de Filosofia, tio de um adolescente chamado Arthur e, principalmente, amigo de vocês: Alcoólicos Anônimos.

Texto publicado na Revista Vivência, ed.131. Maio e Junho/2011.

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Ótima referência de filme sobre o tema: Vício Maldito.